
Desculpe, mas não posso ser a sua garota. É o tipo de coisa
que eu gostaria que você soubesse antes mesmo de tentar. Não vai rolar. Eu
simplesmente não consigo ser o que você quer que eu seja. Não me adapto a
expectativas. Quando alguém espera demais de mim, eu faço o oposto. É uma defesa,
sei lá. Me torno hesitante, complicada e contraditória. Você acha que eu estou
"me fazendo", e talvez esteja mesmo, mas não é pra me valorizar, como
você pensa. Eu só quero sentir que estou no controle da minha própria vida, e
saber, talvez, até onde você iria por mim. Se você desiste fácil, você não me
merece. É simples assim. Eu fujo ao menor sinal de interesse da sua parte, e
não é pra você tentar entender, é pra correr atrás mesmo. Se quiser, que me
alcance. Mas eu sei que você não iria longe. Porque é limitado pelo seu
orgulho. Nós já estivemos lá antes. Sabemos onde isso vai dar. Ou não, nesse
caso.
Não
me leve a mal, é que eu sou toda errada. Eu sou uma dessas garotas que sempre
pecam por exigirem demais, que abusam da sua boa vontade até quase se tornarem
chatas. E que até podem ser consideradas esnobes e más, mas não é nada pessoal.
Entenda, eu carrego o peso das minhas escolhas, as erradas inclusive, e o preço
que paguei por elas, foi caro. Por pouco, eu sequer conseguiria estar aqui.
Deixe de drama, você pensaria. Mas é verdade. Fiquei com
traumas. Eu olho casais apaixonados e fico adivinhando mentalmente quanto tempo
eles ainda têm. Você vai achar que eu sou louca, eu sei. Você não sabe o que é
viver se equilibrando numa linha tênue de emoções. Um passo em falso e, eu
caio. De uma altura que me faria ter que recomeçar tudo de novo. E essa é a
maior distância que há: A que separa a desilusão de uma nova esperança. E eu já
percorri muitas vezes esses caminhos, já conheço essas estradas, seus atalhos e
desvios. Cada promessa conjugada no pretérito mais-que-perfeito, e quebrada no
futuro do presente. Lembranças que ficaram para trás porque era o único jeito. São
só detalhes que se perdem no tempo, mas às vezes são eles que fazem toda a
diferença.
Você
é um cara legal, me parece ao menos. Está aí todo cheio de boas intenções.
Tenho certeza que seria melhor do que os outros. Se te desse uma chance, você
me provaria isso. Mas acontece que eu não sou mais essa garota. Eu não vou mais
onde meu coração manda. Não atendo aos apelos da minha imaginação, e nem deixo
a correnteza guiar meus sentidos. Eu lido melhor com lobos do que com
príncipes. Tenho mais experiência com eles. Conhecimento de causa. São mais
perigosos e menos sinceros. Parecem mais comigo nos dias de hoje. Mas você não
entenderia. A sua mente é muito simplista. Ou vai, ou desce. A minha é
insuportavelmente complexa, de quem confia desconfiando. Ou vai, ou espera. E
se vai, precisa saber pra onde, e quando, e como. E quais as chances de
acontecer de novo, e de ser melhor do que a primeira vez, e do que a segunda...
E depois, como a gente vai ficar, se tudo for ficando forte e intenso demais,
pra continuarmos fingindo, e ignorando o futuro? Como se ele não estivesse lá,
me perguntando sobre os meus planos: - Quando vou casar? Quando virão os
filhos? Onde ficaram os sonhos que costumavam nos fazer deitar, e adormecer por
noites inteiras?
Existe
uma insegurança em mim que me esgota. Sozinha, eu dou conta. Invento desculpas.
Me convenço de alguma forma que tudo está melhor assim. Sou feliz do meu jeito
torto. Não sou boa em muitas coisas. Mas suficiente para o que eu preciso. E eu
me encontro nessas horas. Sigo à toa, e não exijo respostas prontas pra minhas
perguntas inoportunas. Elas não importam tanto a ponto de me deixarem incômoda
com tudo que ainda me permito sentir e viver.
Mas
com você, eu me perco, não tenho controle nenhum sobre elas. Elas me desafiam,
e ficam implicando com as minhas manias, distraindo a minha razão. E eu odeio
emoções, odeio ficar sensível a ponto de não conseguir disfarçar. E quando você
me toca, eu sinto se esvaírem minhas forças, e vou me rendendo aos poucos, até
me desintegrar completamente nas suas mãos. Você me tem então onde queria. E eu
nunca sei por quanto tempo isso vai durar. E isso me mata. Por um momento, até
me excita, mas depois me faz querer explodir de raiva. Por não ser capaz de
entender o que sinto. Por me fazer abrir mão do meu orgulho e das minhas
convicções em nome do que você acha que sente. Pra mim, isso é pouco. Não é
nada comparado ao que eu poderia esperar de você.
E
é por essas, e tantas outras coisas, que eu não sirvo para ser a sua garota. Simplesmente
não tenho as qualidades que você procura. Eu não saberia lidar com as suas
fugas inesperadas, nem com a sua busca diária pela garota perfeita. Ela é à
prova de falhas. Eu sou um poço de defeitos. Ela é um ideal imaginário. Eu sou
tão real que você não entende. E teima em me fazer duvidar que eu realmente
valha à pena. Mas não espere que eu me esforce pra fazer você entender o que
está perdendo. Aprenda a ler nas entrelinhas. Já estava escrito no rótulo:
"Tenha cuidado, não se aproxime!"
Se
você não for capaz de ler nos meus olhos, interprete as minhas ações. Eu não
sou facilmente tratável. Não nasci pra satisfazer as suas vontades. Sinto
muito, mas não posso ser a sua garota.
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