segunda-feira, 30 de agosto de 2010
FILTRO DOS SONHOS
"Era a prova de sua fé incontestável em tudo que fazia.Era a certeza de que ela apostava no amor, mesmo contra todas as probabilidades, mesmo podendo estar errada e até mesmo se magoar à toa.Para ela nunca era à toa, porque no fundo, ela nunca começava nada antecipando como seria o desfecho final."
Seu primeiro pensamento ao se olhar no espelho naquela manhã cinzenta fora: "Meu cabelo não está em um bom dia!"-em seguida riu de si mesma, jogou uma água no rosto, como que para despertar do transe cataléptico do sono.Era uma segunda-feira, e o mundo girava tranquilamente conforme o aprumo da gravidade.
Na verdade ela tinha longos e sedosos cabelos que se ajeitavam fácil.Aparentemente, é claro.Mas diga isso para uma mulher...Era uma exagerada, certamente.Mas não tinha vaidades excessivas.Não a ponto de perder o foco no que realmente importava para ela.
Os olhos, castanhos e contemplativos, delineavam o rosto suave, de uma vivacidade ímpar.Procuravam naquele instante a inspiração para desenvolver um texto, concluir uma idéia, alcançar um sentido implícito no assunto, ou simplesmente observavam uma cena cotidiana e trivial.
Tratava-se de seu último semestre na faculdade.Trabalho de conclusão, prazos de entrega e o escambau.Já parecia estar bem adiantada em relação a seu futuro.Coisa de quem segue a risca o script só partindo pros improvisos quando lhe são exigidos.Que nada.Ela cansara de abandonar projetos pela metade, bastava que não a fizessem vibrar, que não lhe trouxessem o mínimo de satisfação interior.Era uma entusiástica, e falava alto.Incansavelmente e alto.Tanto que ás vezes até se via falando consigo mesma.E discordava de si.Briga feia, páreo duro!Coisas de uma mente prolixa, com nervos à flor da pele e uma ansiedade anacrônica.
Era muito fiel a seus gostos, embora sempre aberta a coisas novas.Adorava quando amava, desgostava em doses homeopáticas, quando era pretendida.Se gabava de ter atitude com o sexo oposto.Num mundo de homens acomodados ela era imponente.Impulsiva e impetuosa.Mostrava a que veio.Dava seus ares.Exibia sua alma ardilosa e inquietante.Sensível como um trem desgovernado.Também sabia encenar um drama como ninguém.Exagerada, sim.Exageraaaada!Tinha um gosto peculiar para literatura e música.Adorava cantar seus ídolos.E cantava mal.E encantava muitos.Vá entender...
Jim Morrison talvez a entenderia.Não, definitivamente não, mas beberia todas com ela sem dúvidas, e caminhariam pela noite a procura de um bar com pessoas anarquicamente diferentes vestidas num estilo visual retrô.
Ela amava o que era diferente, porque ela era diferente.Mas nem todos percebiam que a sua diferença era o que a tornava simples, mesmo sendo tão complexa.Sincera, mesmo tão inconstante.Os seus gostos inusitados eram a sua natureza se manifestando de forma direta.Seu apego momentâneo, sua íntima liberdade renovada a cada ciclo de voltas da terra em torno do sol.A cada mudança nas marés.Cada nova paixão onde ela era intensa.Ás vezes profunda, outras mais pé-no-chão.Realista ao extremo.Passível de ilusões forjadas por si mesma num momento sublime de entrega.Para tornar a emoção mais plausível.O sentimento mais real. "Que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure"...Ou algo do tipo...
Era a prova de sua fé incontestável em tudo que fazia.Era a certeza de que ela apostava no amor, mesmo contra todas as probabilidades, mesmo podendo estar errada e até mesmo se magoar à toa.Para ela nunca era à toa, porque no fundo, ela nunca começava nada antecipando como seria o desfecho final.
Havia uma luz radiante que brilhava em sua vida.Sim, havia.Sua pequena e imensurável razão de existir.Ela era tão rarefeita de amor que inspirava o melhor dos outros.Pouco exaltava isso em si mesma.Embora muito consciente de suas virtudes, a maior de todas elas ainda lhe era um mistério.Sua capacidade de amar e espalhar felicidade por onde passava.Precisava ser desvendada.Aos poucos, conhecida, descoberta...Sem excessos, sem carências, sem faltas, esquecimentos súbitos ou presenças forçadas.Sem pressa, sem que se perdesse muito tempo.Sem indecisões.Sem culpas, desculpas ou medos.Com jeito, acima de tudo com jeito...Também com algum mistério, algum romance e em algum momento.De preferência, quando não estivesse esperando.E quem vive verdadeiramente sem esperar?
Tudo assim visto daqui, deste ângulo inverso onde o horizonte parece mais claro.Como a sua pele e a luz incidindo sobre as flores na varanda.Como por um vidro invisível que separa o certo do duvidoso.Num fim de tarde qualquer.Numa mesa de bar, entre duas amigas.Olhar sorridente, gestos falantes, charme extrovertido.O que soa tão agradável?O que te faz rir e te torna tão indecifrável ao mundo?Ao meu mundo?Por que te odiar nunca foi uma escolha possível?Embora eu tenha tentado, e você tenha colaborado com um milhão de motivos.Eu nunca pude.Tenho que admitir, meu esforço, minha marra, a minha cara amarrada, tudo enfim...Na real foi só um péssimo disfarce.Diante de você, eu nunca soube atuar.Por mais que às vezes parecesse outra pessoa.No fundo ainda era eu que estava lá.Tentando não transparecer minhas fraquezas, tentando aprender um jeito não tão óbvio de te amar.É claro que eu adoraria pular toda essa parte pseudo-sentimental e ir direto ás preliminares, quem não gostaria?- mas afinal de que forma isso me faria diferente dos demais? Me diga?Nada.Esqueça!Você não entenderia...Apenas deixe pra lá...
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